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  • 5/09/2008

    nonsense

    me clica, vai.

    Esta imagem não deve fazer sentido para quase ninguém além de mim, mas eu quis guardar, antes que ela se fosse. Se faz sentido para você, meus pêsames: bem-vindo ao clube!

    3/09/2008

    Michel Houellebecq: Plataforma

    Michel Houellebecq costuma causar emoções extremas em seus críticos e em seus fãs. Ambas as facções possuem razões para sentirem o que sentem, embora provavelmente, muito provavelmente, não sejam as razões certas.

    A primeira impressão que Houellebecq passa é a de um desbocado, dizem. “Oh, um desbocado!”, como diriam de Philip Roth. Se formos julgar por este aspecto, o francês vence o americano com facilidade: sua densidade de descrições de cenas de sexo por página é muito maior. Como em Roth, todavia, elas não estão ali de graça: elas fazem parte do caminho para as realizações do personagem.

    Como Roth, e outros escritores contemporâneos, Houellebecq não se furta a participar de seus romances. Os enfoques são diferentes: este entra sem mesmo fantasiar seu nome, enquanto o outro se divide em objeto e observador, entre herói e narrador. E, francamente, funciona muito bem, em ambos em casos.

    Com um pequeno porém, entretanto: o autor francês, talvez pela curta produção, distribuída em um curto período de tempo, parece ser mais repetitivo. Não li seu outro romance, Partículas Elementares, mas vi a adaptação de um diretor alemão. Vários elementos são comuns: o perdedor compulsivo que apenas sobrevive, renhido dentro de uma visão bastante peculiar da realidade: para ele, uma visão crua, desnudante; para os outros, apenas misoginia e preconceito.

    Aqui, como lá, o perdedor encontra sua princesa, e ela é exatamente como ele precisa que ela fosse: o entende em minúcias, e se entrega ao que ambos procuram como salvação da alma em tempos desesperançados. Salvação? Sim, falo de sexo.  Neste ponto, Houellebecq dá sua cartada mais impressionante, e mostra-se totalmente afinado com a atualidade, sem, entretanto, perder o gume ou ser tomado por ela. O diagnóstico de Michel é o mesmo que se escuta em qualquer boteco desclassificado na cidade: falta sexo para este povo europeu.

    Se a descoberta por si é banal, cabe ressaltar a revelação por trás do truque: o sexo demanda mais do que desejo, demanda doação. Para que exista o sexo em sua plenitude, os títeres protagonistas de Houellebecq precisam esquecer-se de suas identidades, deixar de lado suas relações de hierarquia. Como Michel narra, sabe-se que outra fonte deste sexo libertador são as prostitutas tailandesas, cantadas em loas bíblicas aqui. O que Valérie fazia para canalizar sua energia sexual ou mesmo para adquirir as habilidades que demonstra a Michel, não é revelado, apenas sugerido.

    Através das diversas camadas de mau humor simplista e costumes sexuais reprováveis, Michel é um espírito elevado. Aprecia a cultura, lê muito, e cita seus prediletos enquanto narra. Com este toque, Houellebecq demonstra sua teoria de que não há escapatória para o homem de classe nestes tempos, exceto as vielas mais sórdidas. A faceta cultural, entretanto, sinaliza também um certo descontrole do romancista, que deixa vazar demais de si para sua pretensa criatura. Este deslize enfraquece, por vezes, o vigor narrativo, pois indica um veio intenso que pode ser efêmero.

    O destino final desta linha de raciocínio, no livro, é a manutenção do colonialismo, aquele monstro que, como imaginávamos, estava estrebuchando no século XIX. Então: era mentira. No século XXI, a Europa continua sugando as suas colônias. Ou sendo sugado por elas, de forma mais coloquial. Entretanto, as prostitutas orientais serão vingadas, e a vingança virá na forma da tragédia que se abate sobre Michel, em mais um dos pontos típicos de uma certa fórmula Houellebcq de escrevinhação de romances.

    Lido ao pé da letra, Houellebecq é um chato, do tipo que resmunga o tempo todo, soltando farpas para todos os lados. São atingidos ecochatos, muçulmanos, empresários, yuppies, hippies, feministas, velhos, jovens, e, se não me engano, sobra para comunistas também. Há de se tomar alguma distância, e observar as entrelinhas da bem costurada prosa de Houellebecq: ali, nas amarrações bem pensadas, segue um anti-herói com fôlego o suficiente para filosofar de modo relevante nossos dias, esses dias idiotas e hipócritas.

    Um momento para desvendar espíritos: se você se incomodou com as “razões certas”, bem, você já se alistou em um dos exércitos em torno de Houellebecq. Quanto a mim, vou aplaudir bem baixinho, aqui do meu canto; se ele não se leva a sério, porque deveria o leitor fazê-lo?

    28/08/2008

    Caminhando

    O ser humano toma suas decisões, traça seus caminhos e constrói sua vida, tudo isso baseado em percepções abstratas. Uma vez que a decisão tenha sido tomada, o caminho traçado e a vida construída, ele pára um pouco, olha para trás, e tenta justificar, ou, ao menos, nomear aquilo que viveu pouco antes. Antes que este texto pareça por demais pomposo, vou ao ponto, que é dos mais singelos.

    Quando as manhãs surgem claras e sem nuvens, e meu dia não pede maiores malabarismos logísticos, permito-me ir ao trabalho caminhando. Se, ainda por cima, acordei cedo, e o dia ainda não está quente, arrisco-me a ir com minha magrela.

    Quando chego ao estacionamento da empresa, agora abarrotado de carros, não raro encontro algum colega. E, uma em duas vezes, segundo uma estatística que formulei há coisa de dois minutos, a pessoa emitirá uma frase com, mais ou menos, o seguinte conteúdo: “ué, onde está o teu carro?”. Algumas vezes haverá algum comentário sobre o estilo do meu carro, um trivial Ford Ka, mas a minha resposta não dependerá muito disso. Geralmente sorrio, e, em algumas ocasiões quando trago minha nuvem cinzenta sobre a cabeça, quase não consigo disfarçar que me desgostam os filisteus.

    Nesta hora, surgem as justificativas para o fato de eu vir caminhando da minha casa, sem apelar ao tão natural ato de deixar-me carregar pelo meu prestimoso veículo automotor. Resolvi, hoje, compilar uma lista dessas justificativas, pelo motivo básico que impulsiona quase todas as linhas por aqui: falta do que fazer. Assim:

    1. Caminhar é saudável. O trecho que caminho de casa ao trabalho é percorrido em meia hora, sem afobação. Vale como um bom exercício matinal, e me deixa melhor preparado para caminhadas mais agrestes que eu queira encarar;

    2. Caminhando, nos harmonizamos melhor com o mundo ao nosso redor. Observamos os detalhes, respiramos com seu ritmo, percebemos que ali vive alguém, notamos que alguma árvore é especialmente bonita. A vivência urbana existe, efetivamente, quando caminhamos. Dentro de carros, somos macacos enjaulados e medrosos, meio surdos e meio cegos;

    3. A desaceleração que a caminhada fomenta é relaxante, e promove um melhor início de manhã, o que já é, em si, o prenúncio de uma boa manhã e de um bom dia;

    4. Se caminhamos, estamos sujeitos a ganhar caronas, e caronas são sociabilizantes mais do que bem-vindos em nossa rotina de trabalho massivo e televisão embotante. As conversas descompromissadas durante uma carona são excelentes para a construção de uma rede social diversificada, base para a criatividade e para o bom aproveitamento das oportunidades que surgem. Além disso, alguns motoristas se culpam por usarem seus carros, e podem sentir-se melhor por justificarem um pouco melhor o uso de seus possantes;

    5. Por vezes, pode bater uma preguiça, e o vivente acabar dentro de um ônibus. Outro grupo de pessoas, e, talvez, a possibilidade de puxar o livro de dentro da mochila. A sensação de movimento pode enriquecer a literatura, embora diversas pessoas resmunguem sobre o enjôo que sentem ao tentarem ler dentro de latas em movimento,

    Eu poderia, caso não tivesse sido acometido por uma repentina preguiça, prolongar esta lista, esforço este que logo resultaria no esgotamento do leitor, provavelmente bem antes do esgotamento do assunto. Sendo assim, retiro-me, torcendo para acordar cedo amanhã, pronto para caminhar um pouco mais.

    26/08/2008

    Emiliana Torrini: Love In The Time Of Science

    Emiliana Torrini tem um pezinho na Islândia, e é doida como todas as suas conterrâneas famosas. Roland Orzabal, por sua vez, é um dos poucos artistas que consegue concorrer com Roger Waters no quesito Problemas Psicológicos Avançados. Como em algumas das duplas mais improváveis que o mundo já viu, a junção rende bem, e as letras bipolares de Torrini se esbaldam na produção, por vezes sufocante, de Orzabal. Neste ponto, o que pega é a excessiva hierarquia: o produtor rodadão manda, a artista inexperiente obedece.

    Orzabal fornece, na mesma mão, alimento e veneno: estrutura o disco de forma incisiva e efetiva, mas carrega alguns cacoetes desagradáveis consigo. Na pomposa Telepathy, por exemplo, poderiam ser os vagidos de Orzabal em lugar do vocal amplificado de Torrini, o que causa algum desconforto; para efeito didático, o início de Wednesday’s Child é puro Orzabal. Para traçar uma linha de comparação, é mais ou menos como quando você descobre que a fagocitabilíssima Cléo Pires lembra demais, em seus traços faciais, seu pai, Fábio Júnior, o Traçador Implacável, ídolo compulsório de todos os cafajestes do Brasil. Em tempo: depois deste insight, Cléo Pires nunca mais habitou minhas fantasias.

    O trip hop, nesta época já um estilo estabelecido e regras bem definidas, deixa-se, como ferramenta, apropriar por Orzabal sem maiores receios. Os seus sintetizadores carregam um pouco demais a estrutura vagamente rebolante, mas a aresta jazzy, um dos pontos principais do manifesto Portishead, é mantida. Orzabal soma a isso seu retrospecto no Tears For Fears, com pitadas de grandiosidade new age, sem prejuízo para a organicidade.

    Este é um álbum diversificado, apesar da qualidade impedir de pinçar alguma faixa em especial. Summerbreeze antecipa o disco seguinte, Fisherman’s Woman, e mostra Torrini no estilo vocal que a consagrou: fofa e serena. Baby Blue é uma balada fantasmagórica, coisa de Frankenstein sobre uma colina com descargas atmosféricas mesmo. O disco vai indo nesta linha enrolada em ataduras até que começa o bloco otimista, a partir da faixa 5, mas desconfio que Unemployed In Summertime somente soe up apenas por comparação com os meandros sinistros anteriores. Se alguém pensou em cenas tenebrosas ocorrendo em uma pousada isolada no Mediterrâneo, pegou a idéia.

    A parte mais legal é que a edição é bem resolvida, fazendo com que o álbum vá se apagando aos poucos, ainda que marcante, permitindo que a vontade de ouvir tudo de novo se concretize.

    21/08/2008

    John Updike: Confie em Mim

    John Updike provavelmente não é o cara; tenho alguns candidatos, e eles se revezam na disputa, mas Updike não está entre eles. Updike é um cara, daqueles a quem você pode dedicar boas horas de leitura. Ele apareceu em uma prateleira do Sebo Império, e, subrepticiamente, acabou ocupando dois espaços na minha prateleira.

    O primeiro volume, ainda em aberto, que estou é lendo é Confie Em Mim, uma coletânea de contos. Esta descrição é um tanto restrita, mas a minha impressão completa rescende a clichê. Updike, neste volume, tece uma colcha de polaróides não necessariamente urbanas, mas, com certeza, de um ponto de vista urbano. O que vem a ser, provavelmente, o ponto de vista de Updike, o ângulo de onde ele enxerga sua própria existência. Ele descreve episódios da vida de produtos do baby boom com a propriedade que apenas um deles, os tais filhotes da empolgação ianque pós-segunda guerra, poderia ter. Por vezes, o relato é de uma semana, em outras toda uma vida, excetuando, em geral, a infância. Os personagens de Updike são adultos que já criaram os filhos, já se separaram das esposas, ou ao menos as traíram ou foram traídos por elas, e que se vêem em um novo mundo, onde nem todos se adaptam. Seria raso considerar este livro pelo viés da reprodução de clones prováveis de Updike, dado que este é habilidoso o suficiente para nos afastar de uma imitação barata da vida.

    Updike escreve com fluidez, e solta exercícios espirituosos de prosa a cada página. Não raro é parar um instante para reler uma descrição extremamente feliz dele. Pelo descompromisso cuidadoso de suas linhas, Updike oferece reflexão no lugar de redenção, e eu sou o tipo de pessoa que aprecia o entendimento simples das condições inevitáveis, em lugar da busca das panacéias absolutas que a sociedade oferece aos cidadãos que não engoliram bem suas respectivas pílulas de esquizofrenia.

    Inevitável é a infâmia, e eu nem mesmo pensei em evitá-la: Este é um bom livro, confie em mim.

    12/08/2008

    Justin Chadwick: The Other Boleyn Girl

    A Outra, mais uma em uma série de más traduções, é um bom filme, mas suscita comparações com, no mínimo, dois filmes que eu vi: Elizabeth, A Era de Ouro, e Morte ao Rei. Situados em épocas contíguas e baseados na vida da mesma côrte, estes dois filmes apresentam um tratamento similar entre si, e diferente deste A Outra.

    Talvez pelo rigor documental que pretendia mostrar, o filme sobre Elizabeth, continuação, para ser mais preciso, era insosso, imperdoavelmente insosso. Num primeiro momento, pensei em creditar todo o fracasso ao canastríssimo Clive Owen, mas penso que ele não deveria ter um único momento de orgulho em sua carreira, cujo ápice seria um justo Prêmio Cigano Igor de Interpretação Duvidosa. Apesar das atuações melhores, Morte ao Rei não escapa a uma tarde de mau humor de minha pessoa.

    Sendo assim, foi uma agradável surpresa que A Outra se propusesse a pintar um episódio crucial da história britânica com cores mais extravagantes. Recheado de intrigas, traições, adultérios, alianças estranhas, comoventes devoções e desastradas estratégias, o filme mais parece saído da pena de Alexandre Dumas, cuja côrte da França aparece em um plano de fundo em certo ponto da história.

    A Outra é um filme mediano, que se destaca pelo simples feito de não decepcionar. Utiliza-se do figurino suntuoso com a necessária competência, toca uma trilha que não incomoda e da qual não lembrarei amanhã, e tem umas tomadas celestes desnecessárias e bem bonitas. Adoro nuvens.

    Seguindo o padrão desprovido de surpresas, a trinca de protagonistas nos dá exatamente o que se espera deles, e penso que não preciso entrar em detalhes sobre Scarlet Johansson, Natalie Portman e Eric Bana, exceto pelo fato de que este último, em seus mantos e tronos, ficou parecendo demais com o Dave Gahan no vídeo de Enjoy The Silence. Parecia que, mesmo durante alguma cerimônia de decapitação, Bana poderia tentar ser simpático, e, até mesmo cantar alguma coisa. Medo. Jim Sturgess foi o Jude de Across The Universe, e é outro que parece pronto a cantar a qualquer momento. Sério, já imaginou ele levantando-se diante do machado do executor, e cantando Help? Curiosamente, quem canta, na vida real, é Johansson.

    Eric Bana, apesar do bom desempenho, poderia ser facilmente substituído pelo canastrão tupiniquim José Mayer, sem prejuízos para a caracterização de Henrique VIII, o Pegador. Cara, o homem traçava tudo que aparecia pela frente! Agora, insubstituível é Kristin Scott Thomas como a esposa do perdedor e mãe das crias que chafurdam na tragédia. Ainda que Ann Torrent seja preciosa como Catarina de Aragão, Thomas leva ao extremo a qualidade do seu papel, mesmo dentro de uma trama de excelentes coadjuvantes.

    Noves fora, o filme discorre sem sobressaltos ou trancos, e nem mesmo o fantasma, do que sabemos que acontece a seguir, apareceu.

    ***

    Não fosse interessante pelos critérios tradicionais, A Outra ganharia, em minha apreciação, dois valiosos pontos pelos trocadilhos. Primeiro, é difícil não pensar no tradicional arranjo de flores japonês quando se pronuncia Eric Bana. Segundo, porque a palavra “Bolena” é tremendamente apropriada em um filme onde rolam diversos momentos do mais antigo esporte do mundo.

    9/08/2008

    The Catcher In The Rye: Second Round

    Num esforço monstruoso para tornar-me um ogro mais adequado ao convívio com os seres humanos, aceitei ler The Catcher In The Rye, desta vez no idioma original. O passo em direção à Era de Aquário, neste caso, se daria pela tolerância, e pela noção de que este romance era um dos degraus fundamentais na construção do que viria a ser a literatura moderna.

    Ou algo parecido. Tanta gente me aporrinhou com as frases padronizadas dizendo que The Catcher In The Rye é um pioneiro na utilização do inglês, que eu resolvi dar uma chance. Com um exemplar emprestado, é claro.

    Estou no final da bomba agora, e, bom, continua sendo uma bomba, em inglês como em português. Caulfield continua sendo uma bosta de um adolescente chato, e este livro continua sendo uma bosta de um diário de adolescente.

    Pioneirismo? É difícil negar, porque deve ter sido realmente uma quebra no modo de expressão. Tanto no formato confessional quanto no uso do palavreado coloquial a rodo. O que não significa, porém, que o resultado seja mais do que medianamente palátavel.

    A narrativa envolve na medida da curiosidade e de um certo grau, pequeno, de identificação. A curiosidade aqui é um sentimento mórbido, pois Caulfield percebe o universo de uma forma distorcida, não consegue se adaptar a nada, e só faz besteira. Todo maldito momento neste livro. Ele simplesmente não consegue exercitar equilíbrio em mais de um parágrafo seguido, o que chega a ser agoniante em certos momentos. Quanto à identificação, bem, todo adolescente tem muitos pontos em comum, e, particularmente, estes pontos não são interessantes e nem me deixam orgulhoso a ponto de escrever sobre isso. Morrissey, o possível maior especialista em adolescência, canta:

    I am so glad to grow older to move away from those younger years

    Ao terminar esta leitura, provavelmente serei uma pessoa ainda pior: sentirei o orgulho de ter lido esta naba em inglês, e continuado a achá-la uma bosta. Salinger, you sonovabitch.